O dia em que ela experimentou o amor próprio.

Natasha era apenas mais uma mulher no meio da multidão. Mais uma daquelas que não chama a atenção, que passa despercebida, e quando alguém a percebe a olha de rabo de olho.

Jeans surrado, all star, um rabo de cavalo amarrado alto, meio torto meio desfiado e seu óculos.

Mais uma semana se inicia e ela está indo trabalhar, ainda com sono anda mole pela rua e tira um último resquício de remela do olho.

No auge dos seus trinta e poucos anos, ela tem uma vida confortável. Trabalha naquilo que gosta, tem seu carro e com ele quando bate aquela “bad”, vai aonde quer. Tem uma casinha pequena, mas suficiente para ela e seu gatinho de estimação.

Apesar da constante cobrança de familiares e amigos, ela não quer um relacionamento. Ela gosta de estar só.

Quando está com os amigos, ela é aquela mais animada, aquela que dança quando sua música favorita toca, aquela que sobe no palco pra cantar mesmo que desafinada, aquela que é a última a ir embora. Mas vai só, só porque gosta de chegar em casa e dormir de jeans, só porque não consegue achar ninguém interessante na noite.

O quarto dela já foi cena de muitos encontros, mas nenhum que passasse da primeira vez.

Às vezes ela até tem vontade de dividir a cama com alguém por um final de semana inteiro e recusar aquela cervejada com os amigos, pra ficar deitada de conchinha comendo pipoca e vendo filme, mas ela não consegue pelo simples fato de não conseguir encontrar ninguém digno de merecer deixar seu cheiro em seus lençóis brancos.

Natasha não é dotada daquela beleza de parar o trânsito, pelo contrário, ela é simples, está sempre de cara lavada e assim gosta de ser.

As vezes ela gosta de colocar salto,  passar batom vermelho e se admirar no espelho, mas ela sabe que aquilo não é o que ela verá no espelho todos os dias.

Ela é tímida. Quando vê um cara bonito na balada não chega nele, não olha nem dá indiretas. Ela fica na dela, esperando que o cara a perceba e venha lhe oferecer outro chopp.

Quando bate aquela carência, aí sim ela parte para o ataque, mas é apenas uma personagem que ela veste para poder saciar seus desejos carnais em uma noite quente, com falsas promessas de “eu te ligo” e um número de telefone que ela faz questão de passar errado.

Ela já saiu com muitos caras, altos, baixos, gordos e magros, mas todos com o mesmo vazio que não a preenchia.

Os óculos não eram apenas um acessório, eles eram parte da sua personalidade, de todo o seu intelecto. Ela gostava de conversar, gostava de contar suas experiências e suas viagens, e adorava escutar sobre as aulas de faculdade de bilogia que o cara estava fazendo. Conversar sobre diversidades era seu afrodisíaco, porém o mercado de intelectos estava fraco e ela acabava saindo com o primeiro que viesse puxar um assunto qualquer.

Porém ela estava cansada de futilidades e resolveu ser mais criteriosa. Não com os outros e sim com ela mesma. Ela resolveu, depois de muita leitura, começar a aplicar a lei do amor próprio. Aquele que nasce com a gente, mas nos é podado dia após dia, pelo simples fato de; ou você abre mão dele ou volta sozinha pra casa.

Desde que começou a regar o seu amor próprio e ele foi crescendo, com mais frequência ela voltava sozinha pra casa, porém ela já não se importava mais, pois aquilo que ela estava vivenciando era bom. Ela estava sendo quem ela realmente era e a sensação era boa. Ela não precisava mais aturar aqueles babacas bêbados em fim de festa só para ter mais uma noite de prazer porque ela sabia que era melhor que isso.

Um certo dia, tomando seu chopp com seus amigos em mais uma Happy Hour, um rapaz se aproximou e se apresentou. No começo ela ficou desconfiada, mas aos poucos os assuntos foram fluindo e ela foi mergulhando cada vez mais no que o cara falava. E como ele falava!! E como ela adorava… Entre um gole e outro ela empurrava delicadamente o óculos com os dedos e ria das coisas que ele contava.

Os amigos já se preparavam para ir, quando ela decidiu ficar. O papo era bom, e poxa, ele era um gatinho.

Depois de muito papo e tantas outras rodadas de chopp o garçom vem avisar que o local já está para fechar. O rapaz percebendo o interesse dela resolve dar uma esticada na noite que vagarosamente começava a ganhar tons alaranjados no céu e a convida para um café da manhã na padaria da outra esquina. Ela mais que rápido aceita e pega sua bolsa.

Enquanto esperavam o pingado com pão na chapa, sentados um ao lado do outro, lançaram um longo olhar. Ela sentiu seu rosto ruborizar e desviou o olhar, e ele percebendo a timidez da moça, com o dedo no queixo dela, a fez olhar para ele novamente. Seu rosto queimava, mas ela resolveu dessa vez não desviar mais o olhar, e ele delicadamente repetiu o gesto que ela fez por várias vezes durante a noite, empurrando seu óculos para trás e lhe dando um beijo.

Ela se sentiu completa. E sentiu que ele estava ali para lhe acrescentar, e não apenas para lhe tomar espaço, então ela não pensou duas vezes e o convidou para conhecer sua casa. Pela primeira vez em longos meses ela estava voltando para casa acompanhada.

Chegando em casa, ela se sentiu feliz, pois estava com alguém que ela realmente queria estar. E naquela manhã ela conseguiu ser quem ela realmente era, fez o que ela gostava de fazer, sem medo de se entregar e mostrar seus sentimentos. Em certos momentos ela ria de si mesma, tamanha a felicidade que sentia em poder ser quem ela era.

E naquela manhã de amor, ela entendeu o verdadeiro significado do amor próprio. E naquela manhã ela desejou que o cheiro dele ficasse em seus lençóis, e fez questão de pegar o número dele, pois desta vez ela quem ligaria e assim teria certeza que ele teria o número certo dela.

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Gaby Vieira

Fotografia é minha profissão e minha paixão, para qualquer lugar que eu vá minha câmera sempre vai comigo. Amante do bom e velho rock 'n' roll e uma cerveja gelada na praça da esquina com as amigos e papos aleatórios, também sou viciada em filmes e seriados. E já fui a tia da merenda por quase 2 anos em uma escola. Experiência na qual nunca mais quero passar...