Estereótipos muito além da América da Gambino

Recentemente o ator, roteirista, humorista, músico e rapper americano Donald Glover — também conhecido no mundo da música como Childish Gambino — parou a internet com o vídeo do seu novo single This Is AmericaCarregado de referências e easter eggs, o registro audiovisual combina ironia e violência explícita na abordagem de temas ligados à tensão racial nos Estados Unidos.

Tema recorrente que permeia a história dos EUA desde sua fundação. O que talvez você não tenha percebido é que os estereótipos racistas sempre foram usados pela cultura americana e pouca gente percebeu.

Abaixo você confere alguns desses estereótipos que transcendem a obra de Gambino.

Jim Crow

Thomas D. Rice era um comediante nova-iorquino nascido no início do século XIX. Com a intenção de renovar no seu repertório, ele resolveu visitar o Sul dos EUA para buscar inspiração.  Lá, ele descobriu que era um costume dos senhores brancos comparar os seus escravos com corvos (em inglês, crow). Seus escravos, nas horas de descanso, costumavam cantar uma canção (cuja origem é desconhecida) sobre uma figura lendária chamada Jim Crow.

Então, como qualquer ser humano “normal”, o comediante simplesmente teve a "genial" ideia de pintar seu corpo de preto e se apresentar em casas de shows onde cantava sua adaptação da música dos escravos  —  a Jump Jim Crow.

Vale a pena lembrar que Glover imita a pose de Jim Crow ao executar o músico no clipe.

Nessas apresentações, ele incorporava o que achava ser o “típico escravo negro”: um cara burro, vestindo trapos, fazendo trapalhadas e andando de maneira boba por aí.

Isso fez um sucesso tão grande que criou todo um gênero de apresentações semelhantes  —  the minstrel show  — um “espetáculo” em que se pagava para ver diversos brancos imitando negros usando o blackface em diversas situações cômicas e estereotipadas.

Com o tempo, os brancos passaram a usar o termo Jim Crow como sinônimo para negros estadunidenses e como uma marca de como negros eram inferiores e bem menos desenvolvidos intelectualmente.

Assim essa imagem racista do Jim Crow se consolidou e se tornou um estigma tão forte que as leis de segregação racial impostas nos Estados Unidos ganharam o nome informal de Jim Crow Laws (Leis Jim Crow).

Até mesmo a Disney, considerada uma empresa de entretenimento para toda a família, se valeu desse estereótipo, basta lembrarmos dos corvos do quarto longa-metragem de animação da empresa, o desenho Dumbo. Em 1941, quando as leis de segregação racial ainda existiam nos EUA, a Disney lançou essa animação que tinha entre os personagens corvos com os trejeitos estereotipados associados aos negros (malandros, musicais, com o sotaque típico, etc.) e cujo líder se chamava… Adivinha? Isso mesmo, Jim Crow

Pouca gente percebeu essa referência no desenho do elefante orelhudo.

Sambo (Coon)

Em 1898, quando a escravidão nos EUA já havia sido abolida e as leis de segregação já estavam sendo aplicadas, foi lançado um livro infantil chamado The History of Little Black Sambo  (algo como “A História do Pequeno Negro Sambo” em tradução livre), escrito por Hellen Bannerman.

O livro foi escrito quando Bannerman estava entediada em uma viagem de trem pela Índia. Pelo visto, o tédio impediu que a autora se inspirasse na cultura local, fazendo-a preferir narrar uma história infantil geograficamente e culturalmente incoerente e com personagens negros estereotipados. Sambo, sua mãe Black Mumbo e seu preguiçoso pai Black Jumbo (nomes também considerados racistas) são negros do Sul da Índia e comem panqueca, algo que não faz parte da culinária indiana.

A historinha era sobre um garoto de pele escura que tapeou um grupo de tigres famintos graças às suas habilidades  —  era felizão, sem preocupações, irresponsável, malandrão, inocente. Assim, no contexto dos EUA da segregação, rapidamente Sambo se tornou um estereótipo de criança negra.

Claro que os brancos não precisavam de um livro para pensar isso dos negros, não é mesmo? Esse estereótipo já existia associado à palavra Coon — contração da palavra racoon, que em português significa guaxinim. Isso mesmo, aquele animal pequeno, selvagem e que rouba ovos de galinhas sem ninguém perceber porque ele é bem ligeiro, esperto, etc.

Então, além do Jim Crow, um dos personagens que marcaram a trajetória dos Minstrel Shows (aquelas apresentações de brancos fazendo blackface que faziam um enorme sucesso citadas anteriormente) foi o Zip Coon.

Enquanto Jim Crow era um pastiche de um escravo negro sulista, Zip Coon, que foi interpretado pela primeira vez por George Dixon em 1834, era o que consideravam um “típico negro liberto do Norte”: um negro malandro que quer ostentar sua situação de liberto andando bem vestido por aí, cheio de arrogância por não “se colocar no seu lugar”, usando gírias exageradas e andando pelas cidades aplicando golpes.

Pois bem, Coon ou Sambo se tornaram sinônimos de uma ofensa racial usada para associar negros à malandragem, à preguiça; a gente que foge das obrigações, que vive fazendo graça, cantando e só quer ficar de boa comendo melancia.

Tia Jemima (a Mammy)

Mommy é o modo carinhoso de se chamar uma mãe em inglês, já Mammy é como um negro do século XIX pronunciaria a palavra “Mommy” nos estados sulistas americanos.

Logo, Mammy vem das memórias e diários escritos por brancos no pós-guerra civil, onde contavam como foram felizes ao lado da escrava de casa que era “quase da família”, aquela que os amamentou, que deixava os próprios filhos de lado para cuidar deles, que não tinha vaidade nem vontades, que dedicava a vida inteira a todas essas crianças brancas maravilhosas que ela amava como se fossem os próprios filhos —  Ó, que bonito!

A descrição básica da Mammy gira em torno de uma mulher negra bem gorda, com seios enormes capazes de amamentar todas as crianças brancas do mundo, um lenço para esconder o cabelo crespo “horroroso” e uma personalidade forte, cheia de garra, mas que só serve para lutar pela família branca que ela tanto ama. Alguém no universo literário aqui do Brasil te lembra a Mammy americana?

Se você respondeu Tia Anastácia, acertou em cheio! A versão tupiniquim da Aunt Jemima vive na fazenda da fazendeira Benta e possui as mesmas carcterísticas.

Ela é uma doméstica, nasceu para isso. Cozinha como ninguém e tem as melhores receitas. É leal, é gentil, dá dicas de limpeza, é supersticiosa, religiosa, tá sempre pronta para aconselhar as donas de casa e suas filhas  —  uma grande amiga!

Claro que por se dedicar tanto à família branca a Mammy é alguém sem pretensões, sem vida própria, assexuada e que só sabe servir e mais nada, mas o importante é usar a imagem para enfatizar uma suposta boa relação entre senhores e escravos que tenta mascarar uma relação de poder gritante rolando.

Essa imagem foi firmada no cotidiano e na cultura popular principalmente depois do lançamento dos produtos culinários da Tia [Aunt] Jemima em 1889. Os produtos, a partir de 1893, ganharam um logo que trazia uma mulher negra com todas as características já citadas aqui e a figura da Aunt Jemima se tornou referência popular rapidamente, fixando uma nova personagem na publicidade, TV e cinema. Vários musicais, séries de TV e filmes tiveram sua versão da Tia Jemima.

O Negro Mágico

Este é um estereótipo da ficção. Ao contrário dos outros aqui apresentados, ele não é usado como ofensa racial no dia a dia, mas é usado para apagar o protagonismo dos negros na mídia. Vamos começar com o exemplo do Uncle Remus, esses carinhas legais aí na imagem acima.

O que ele faz da vida? É o, quase sempre, velhinho negro boa praça e carismático que contava historinhas para alegrar a vida das crianças brancas. Ele não tem problemas, nem tensões, pelo contrário, é sorridente, agradável e afetuoso. Todo mundo ama o Uncle Remus. Contudo, ninguém sabe nada sobre ele, a única coisa que sabemos dele é que ele alegra a vida dos brancos. Suas características nos fazem lembrar um pouco a figura da Mammy, porém ele sequer dá bronca, porque ele é brincalhão, amável e indiferente.

Foi o que o Morgan Freeman fez em metade da sua carreira, ao interpretar esses negros sábios ou mágicos que melhoram a vida do protagonista branco, como em Conduzindo Miss DaisyRobin HoodMenina de Ouro, os BatmanTodo Poderoso, etc.

O termo Magical Negro foi usado, e desde então se popularizou, por Spike Lee em uma palestra na Universidade de Yale, quando disse que estava saturado de filmes como The Family Man (Um Homem de Família), What Dreams May Come (Amor Além da Vida), The Green Mile (À Espera de um Milagre) e, principalmente, The Legend of Bagger Vance (Lendas da Vida), pelo fato do filme se passar no período da Grande Depressão e no Estado da Geórgia, onde negros estavam sendo linchados por toda parte, mas o filme apenas está preocupado em ensinar para Matt Damon como se jogar golfe. Na ocasião Lee declarou indignado: “Como é que os negros têm esses poderes, mas os usam para beneficiar os brancos? Eu fico chateado apenas pensando nisso… Ainda estão fazendo o mesmo de sempre, reciclando o nobre selvagem e o escravo feliz.

O negro quase sempre é visto como coadjuvante e dificilmente vai conseguir um lugar de destaque, exceto por alguns poucos filmes onde ser negro eleva o personagem a "bad ass motherfucker". Então, mídia trouxa, faz favor: tira a cabeça de dentro do fiofó e larga mão de reproduzir racismo. Todos agradecem.

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Andre Sousa

André Sousa, Cearense, 31 anos, pseudo intelectual de rede social, inteligentemente gaiato e consumidor moderado de drogas lícitas.