Dark é muito mais que uma Stranger Things alemã

Quando o burburinho a respeito de uma “nova Stranger Things“ surgiu, logo imaginei que seria uma armadilha para espectadores incautos. A premissa de universos paralelos e mistérios já haviam sido maravilhosamente bem esmiuçados e uma nova série com a mesma temática seria um tiro no pé da provedora de séries via streaming.

Muitos dos mistérios se assemelham a ST, mas para por aí.

Pois bem, eu estava completamente errado. Dark além de mais densa e intricada, mata toda e qualquer esperança de final feliz e foge do trivial salvamento “deus ex machina”, muito comum na série de Eleven e seus amigos. Outro ponto bastante destoante entre as produções é a nacionalidade, a produção europeia longe do simulacro dos anos 80 dos subúrbios americanos que estamos tão acostumados traz uma visão cultural bastante diferente da década que nunca morreu em um país que vivia dividido em dois, com costumes bem diferentes e trazendo à tona toda a discussão que permeou a Alemanha naqueles tempos sobre usinas nucleares e todo um movimento anti-energia atômica, principalmente pós-desastre de Chernobyl.

A atmosfera densa das florestas alemãs dão um novo sentido aos mistérios já vistos em outras produções.

Sob qualquer ótica, Dark é um bicho único que enreda sua trama essencialmente simples de ficção-científica em grossas camadas de mistério, drama interpessoal e estética neo-gótica.

É até difícil falar desta primeira temporada sem dar spoilers, mas vamos lá: a trama se passa na pacata cidadezinha de Winden e gira ao redor do desaparecimento do pequeno Mikkel Nielsen, um garoto de 12 anos.

Guarde bem esse rostinho até o último capítulo…

A investigação deste sumiço logo leva o expectador a descobrir que a cidadezinha esconde dezenas de segredos e que todo mundo possui esqueletos no armário. E pior: seus erros e crimes estão ligados a um mal maior que pode alterar toda a História da humanidade.

A forma mais simples de tentar explicar Dark é por comparações. Se você jogar Stranger ThingsLostMorte Súbita e A Torre Negra no mesmo caldeirão, há uma chance de chegar mais ou menos perto de tudo o que a série tenta conquistar.

O seu miolo é focado em ficção-científica e viagem no tempo, mas a maior parte da série passa seu tempo enredada nos conflitos de seus personagens. E são muitos personagens ligados de várias formas, então se você ficar meio confuso com quem é quem e suas motivações, não precisa se sentir mal.Há algo de novelesco nisso conforme o drama dessas pessoas parece, em boa parte, assumir a direção de para onde o seriado vai, com o seu enredo central e elementos sobrenaturais em segundo plano.Há algo constante de Lost e Arquivo X presente conforme você acaba envolvido pela série em busca de respostas. É impossível não tecer suas próprias teorias e soltar um bom “Eu sabia!” ou “Oh, não!” conforme elas se confirmam ou caem por terra ao longo dos dez episódios.E pode crer que há mistério à rodo e tudo está ligado, então o que não falta são pontos soltos precisando ser amarrados até eles serem finalmente ligados no finale.

A série é um emaranhado de teorias sem fim… e isso não é ruim.

Outro fator que ajuda a envolver na série é sua estética. Tanto a sua fotografia quanto sua trilha sonora são adequadamente sombrias, graves e metálicas. Há uma grande quantidade de cenas profundamente claustrofóbicas e outras tantas sem qualquer trilha sonora.

O mais notável, porém, são as diversas cenas absurdamente escuras. Quão escuras? Nível Poderoso Chefão escuras em que se um personagem dá um passo para o lado ele se torna invisível e em que até silhuetas são difíceis de discernir.

As florestas são mais aterradoras a noite.

Mesmo com alguns pequenos furos de roteiro, a série europeia conseguiu manter minha atenção e vale muito a maratona de dez episódios repletos de suspense. Inclusive as personalidades de cada personagem são um show à parte.

 

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Andre Sousa

André Sousa, Cearense, 31 anos, pseudo intelectual de rede social, inteligentemente gaiato e consumidor moderado de drogas lícitas.