Como Tim Maia conseguiu fugir da maluquice “Racional”.

Ao ouvir o baladas carregadas de romantismo, inteligência e pura dor de cotovelo de Tim em “Azul da Cor do Mar”, “Primavera” e  “Eu Amo Você", você certamente não imagina a fase de quase loucura pela qual ele passou. Nelson Motta escreveu um livro discutível sobre o diretor de cinema Glauber Rocha. Felizmente esquecida, a obra é rica em erros e pobre em histórias. Mas “Vale Tudo — O Som e a Fúria de Tim Maia” (Objetiva, 389 páginas) o redime. Embora estranhamente não cite bibliografia (exceto críticas episódicas), como se o artista jamais tivesse sido estudado ou meramente citado por pesquisadores, a biografia tem qualidades indiscutíveis. É inteiramente a favor, mas nuançada, apresentando o músico na sua inteireza, sem excluir as múltiplas contradições. O autor de “Não vou ficar” (gravada por Roberto Carlos, dinamizando sua carreira) e “These are the songs” (gravada por Elis Regina, que ficou siderada pela música) era, a um só tempo, cativante e perturbador nato. Jovem, roubava. Músico de sucesso, dava cheque sem fundos sem a mínima preocupação com as consequências.

Um dos capítulos, “O evangelho segundo Tim Maia”, mostra que altruísmo e boas intenções às vezes podem puxar um artista para trás ao reduzir a qualidade de suas obras. Obras engajadas, produto de fanatismo político ou religioso, permanente ou circunstancial, costumam retirar o brilho da criação artística. A pregação não raro torna o artista menor, conectando-o a guetos e não ao universal. Em 1975, Tim Maia encanta-se pela turma da Cultura Racional-Universo em Desencanto.

O Tim Maia que bebia e usava várias drogas, sem meias medidas, de repente, como se do nada, converteu-se à seita dos homens de branco. E se torna um dos mais ortodoxos.

Ao visitar o amigo e músico Tibério Gaspar, depois de tomar mescalina, Tim Maia folheou um livro e ficou impressionado com as histórias. O ateu praticante havia se apaixonado pelas “ideias” do livro “Universo em Desencanto”. A um amigo disse, entre fascinado e mesmerizado: “Nós somos originários de um planeta distante e perfeito e estamos na Terra exilados. Aqui, nós vivemos na animalidade, sujos e magnetizados, sofrendo nesse vale de lágrimas. A única salvação é a imunização racional, que se conquista lendo o livro e seguindo seus ensinamentos. Só assim podemos nos purificar e ser resgatados pelos discos voadores de volta ao nossa planeta de origem: o Racional Superior”. Risível? Era e é. Mas Tim Maia “batia” (ou ofendia) em quem discordasse dele.

Concluída a leitura, imbuído de uma missão, Tim Maia saiu à procura do mestre Manoel Jacintho Coelho, o sumo sacerdote do Racional Superior. Queria ser purificado e, quando os discos voadores chegassem, iria na janelinha, ironiza, convidando o leitor para rir, Nelson Motta.

Tim Maia havia sido informado de que o sucesso dos músicos Tibério e Antonio Adolfo se devia aos “eflúvios” positivos dos milagreiros da Cultura Racional. A música “Sá Marina” explodiu no Brasil, com Wilson Simonal, e nos Estados Unidos, com Sérgio Mendes e, depois, com Stevie Wonder. “Seu Manoel Jacintho era um mulatão forte e rijo que não aparentava seus 70 anos e tinha quase 2 metros de altura. Todo vestido de branco, imponente como um babalorixá de candomblé, sua figura e seu vozeirão impunham respeito até a Tim Maia.”
Em questão de minutos, Tim Maia se convertera, vestiu uma calça e uma camisa brancas “e não voltou para casa”. Na gravadora RCA, onde era tratado como estrela maior, ficaram preocupados. Ao ser encontrado, lia ferozmente a bíblia “Universo em Desencanto” e pregava com energia. Era um verdadeiro ET. Só faltava aterrissar um disco voador para resgatá-lo do meio dos terráqueos “sujos” e “perigosos”.

Mesmo sem parar de ler o livro, no qual havia encontrado um fantástico universo paralelo, Tim Maia viajou para São Paulo, com sua banda. Com Rita Lee, Chico Buarque, Maria Bethânia e Elis Regina, faria o espetáculo de abertura do Teatro Bandeirantes.

No teatro, o som estava horrível, mas, devotado ao pacifismo da Cultura Racional, “não reclamou” e, relata Nelson Motta, “cantou impecavelmente ‘Réu confesso’, ‘Primavera’ e ‘Gostava tanto de você’”. Ele disse ao público: “Eu estou lendo um livro muito importante que queria recomendar a todos vocês. Se chama, escandiu bem as silabas, ‘Uni-ver-so em De-sen-can-to’ e nele vocês vão saber a verdade sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.

De volta ao estúdio, Tim Maia era outro homem. Cortara até o cabelo. “Estava tão calmo e cordial que parecia estar brincando quando disse que o [novo] disco ia mudar radicalmente, assim como tinha mudado a sua vida, e explicou didaticamente aos músicos perplexos: ‘A Cultura Racional não é uma seita ou uma religião ou uma doutrina. É a verdadeira luz da humanidade, é a explicação para todas as perguntas da existência respondidas por uma força sobrenatural chamada Racional Superior pelos livros do Universo em Desencanto. Leiam o livro, vocês vão encontrar resposta para tudo. O álcool, a maconha, o ácido e o cigarro são coisas do demônio, vocês estão magnetizados mas podem se salvar pela imunização racional”, dizia aos músicos, estupefatos.

Ao explicar que havia mudado mesmo, não era fachada, o músico disse que “estava fazendo novas letras para as bases já gravadas, não mais sobre sexo, drogas e amores, mas dedicadas a divulgar a verdade libertadora do Racional Superior. Dali para a frente só faria música devocional, o gospel racional de Tim de Maia”. O reggae-soul “Que beleza” sofreu algumas modificações.

Gravadas as primeiras letras, Tim Maia correu para mostrar a fita ao seu guru, Manoel Jacintho. Estava tão obcecado pelo mestre, e pela seita que representava, que doou seu equipamento de som para o Racional Superior.

No estúdio, em busca de novos “racionais”, Tim Maia pressionava os músicos, pois queria saber “se tinham lido o livro”. Ninguém tinha lido nem entendido o que significava Cultura Racional, mas o chefão disse que o grupo passaria a ser chamado de Banda Seroma Racional e exigiu que os músicos seguissem à risca os preceitos da seita. Não podiam fumar maconha e cigarro, nem tomar ácido nem beber álcool. “A carne vermelha estava banida e o sexo era só para procriação.” Os músicos aceitaram as regras, para não sair da banda, que era fantástica, mas poucos seguiram rigorosamente a doutrina. “Os músicos bem que tentaram ler o livro, mas era uma doutrina muito louca até para o padrão Maia, um bestialógico absolutamente ininteligível, que de racional não tinha nada, muito pelo contrário”, escreve Nelson Motta.
Como havia se tornado um “racional” verdadeiro, um convertido, Tim Maia farejava até a boca e as roupas dos músicos, investigava se os olhos estavam vermelhos.

Aos 32 anos, com o regime imposto pelo esquema do Racional Superior, Tim Maia emagreceu e ganhou energia. “Os reflexos em sua voz foram imediatos. Um fôlego e uma potência, uma clareza e uma riqueza de timbres que saltavam aos ouvidos. Estava cantando como nunca”, afirma Nelson Motta. Pelo menos uma coisa tinha de “prestar” na nova descoberta do músico. Mas a gravadora não queria lançar as novas loucuras de Tim Maia nem, segundo Nelson Motta, “se envolver com uma seita estranha”.

Os discos gravados a partir da ligação místico-religiosa, “Racional Superior I e II”, não eram ruins; musicalmente, segundo o apurado ouvido de Nelson Motta, era “perfeito”. O biógrafo ressalva que estavam condenados “ao fracasso por sua ligação ao Racional”.

No lugar de brigar com a RCA, que não queria lançar os discos, Tim Maia sugeriu “o cancelamento do contrato e a compra das dez fitas gravadas. Ele mesmo prensaria os discos, distribuiria e venderia. Nascia a Seroma Discos, para lançar o álbum duplo que seria vendido nas ruas e nos shows, com o faturamento dividido entre Tim e o Racional meio a meio”.

A qualidade excepcional dos músicos que acompanhavam Tim Maia suavizava a paixão irracional do artista pela Cultura Racional. Algumas letras, como “Bom senso”

Tinham conteúdo moralista: “Já senti sau­dade,/já fiz muita coisa errada,/(…) Já não dependo das loucuras,/(…) agora sei outra verdade”. Era o mea-culpa do músico. O batidão de “deep funk” aliviava a pregação. A Banda Seroma Racional parecia, mesmo que não fosse a intenção, contrapor-se a Tim Maia, como se, de algum modo, profanasse a letra, digamos, “conservadora”. A música “Leia o livro” é um apelo missionário: o artista diz que até na África as pessoas estavam “lendo os livros da Cultura Racional”. Não estava… nem no Brasil.

Com sua energia intensa, Tim Maia convenceu muita gente a se tornar adepto do chefão da Cultura Racional. Mas Raul Seixas, apóstolo renitente da cocaína, encrespou. Ao não conseguir convencê-lo de que a caretice deveria ser o nirvana dos artistas, Tim Maia advertiu-o: “Tu toma cuidado, hein, magrelo. Nego cheira cocaína e fica logo com vontade de dar o…, cocaína afrouxa o brioco, mermão!” Heterossexual convicto, Raul Seixas continuou cheirando pó e fazendo belas músicas.

Fissurado por sua nova mania, Tim Maia participava de sessões de leitura da Cultura Racional e obrigava seus músicos a segui-lo. “Chato também era ficar horas com Tim olhando fixamente para uma folha de papel em branco, conforme instruções do mestre, para ver a Luz Racional”, conta Nelson Motta. De repente, excitado, dizia: “Estou vendo um pinguinho! Estou vendo a Luz Racional!” Mas nada de aparecer o disco voador da purificação.

Depois de brigar com a TV Globo, com Augusto César Vanucci, que exigiu que ele e seus músicos trocassem de roupas — “o vídeo estourava com tanto branco” —, Tim Maia “passou a chamar os repórteres de magnéticos”.

Uma jovem, não instruída sobre o “novo” personagem, quis saber se a Cultura Racional era similar à Sociedade Alternativa de Raul Seixas e Paulo Coelho. Tim Maia explodiu: “Você está maluca, sua magnética? John Lennon é uma besta e Raul Seixas uma cópia xerox da burrice. Eles são dois quadrúpedes que só querem justificativas para curtir suas loucuras. É vigarice das brabas! E se alguém voltar a falar nisso, a gente acaba o papo já!”

A imprensa e as emissoras de rádio não entenderam os discos. A crítica execrou-os. “Que beleza” fez algum sucesso, mas nada extraordinário. “Nas poucas lojas que aceitaram ficar com o disco em consignação, os fã dançantes e românticos de Tim Maia se assustaram com a capa esotérica e os títulos das músicas. Perda total”, diz Nelson Motta. E “ninguém mais queria contratar” músicos “malucos”, pregadores, com seus messias prêt-à-porter, Tim Maia.

Mesmo abandonado pelo mercado, Tim Maia continuava fazendo música (às vezes de qualidade) e propagando a Cultura Nacional. “Eu sou o Tim Maia Racional”, dizia. “Estava se sentindo muito melhor, mais leve em todos os sentidos, estava na leitura do quinto livro e caminhava a passos largos para a imunização”, anota, com certa compaixão, Nelson Motta.

Com a falta de dinheiro e a crítica contundente de todo mundo, dos ouvintes comuns aos especializados, a banda dispersou. Apesar de não beber e de não usar drogas, Tim Maia não tinha grana e estava preocupado. “Sua imunização não devia estar funcionando, já lera sete livros mas a sua vida só piorava, e ele se desencantou definitivamente com o universo de seu Manoel Jacintho. No dia 25 de setembro de 1975, Tim acordou com uma vontade louca de comer uma carne sangrenta, tomar um goró e fumar um baseado. Teve uma desiluminação e abandonou a seita no seu velho estilo, quebrando tudo. Voltou para o apartamento da Figueiredo Magalhães, tirou e queimou a roupa branca e, nu e furioso, foi para a janela e começou a gritar para a rua, em volume máximo, que seu Manoel Jacintho era um pilantra, um ladrão e um tarado que comia todo mundo. E convocou a imprensa para dizer que tinha sido enganado e roubado pelo ex-guru”.

A “denúncia” de Tim Maia: “Logo vi que o negócio dele era umbanda e baixo espiritismo. Esse Manoel Jacintho não me engana, ele passou 15 anos treinando com o bruxo Seu Sete da Lira e era dono de uma propriedade enorme em Nova Iguaçu, que tinha até motel para extraterrenos. Ele tomava guiné-tatu, uma raiz que deixa a pessoa querendo sexo três dias sem parar, pode ter até 90 anos que a bandeira levanta. (…) E ainda dizia que mulher magnetizava!” Ocorre que, sim, Manoel Jacintho havia enganado Tim Maia, ou melhor, o músico estava à procura de alguém para enganá-lo. Calhou de sua irracionalidade “encontrar” a racionalidade do mestre do “Uni­verso em Desencanto”.

Os músicos respiraram aliviados, assim como os ouvintes de boa música e os críticos de jornal e revista. Tim Maia “voltou”, e rápido, “à devassidão e mandou destruir os milhares de discos que sobraram, não queria nem ouvir falar em nada que lembrasse o Racional Superior. Estava imunizado”, anota, irônico, Nelson Motta.

Comenta-se às vezes que Tim Maia viveu “apenas” 55 anos devido à sua vida desregrada. De fato, o músico, cantor, compositor ganhou e torrou muito dinheiro e usou drogas (tudo o que aparecia em sua frente) e bebeu muito. Fez o que quis de sua vida — relativamente curta. Do ponto de vista do músico, viveu muito, pois intensamente. Talvez tenha vivido tão rápido que, se as contas forem feitas à maneira do artista, talvez tenha passado dos 100 anos. Ele cantou e compôs o quis — e não foi pouco. Grandes artistas não aceitam a camisa de força daquilo que, na falta de palavras mais adequadas, pode-se chamar de “normalidade paranoica”.

O que salvou Tim Maia dos tentáculos apertados e sufocantes da Cultura Racional não foi a retomada de seu ateísmo, e sim sua música. É provável que, quando percebeu que sua música não estava mais chamando a atenção do público, que era fiel e participante, acordou do “transe”. De algum modo, e contraditoriamente, voltou mais “purificado” e com fervor à música.

O filme “Tim Maia”, de Mauro Lima, faz um retrato fidedigno do artista. Mas faltou acrescentar sua paixão por cachorros. A história de sua ligação com a Cultura Racional é contada rapidamente mas com precisão. O livro de Nelson Motta é um verdadeiro maná de histórias.

 

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Andre Sousa

André Sousa, Cearense, 31 anos, pseudo intelectual de rede social, inteligentemente gaiato e consumidor moderado de drogas lícitas.