Black Hole e seu terror representativo

BLACK HOLE se passa nos arredores de Seattle, extremo noroeste dos Estados Unidos, em meados da década de 1970, quando uma praga inominável e traiçoeira se alastra entre os adolescentes locais através do contato sexual e parece não poupar ninguém. A doença é um processo aleatório inescapável, e por isso mesmo assustador. É quase terrorista, atua direto no Inconsciente, em nossos medos mais primordiais. No nosso medo do Desconhecido. Exatamente essa relação envolvendo pesadelos é que reforça o caráter de obra-prima da obra. Ao contrário de histórias de terror de baixa qualidade (seja elas em filmes, livros ou HQs), Black Hole não coloca um Grande Outro (um monstro, um fantasma, o Diabo) como objeto principal de Terror, mas sim como nós lidamos com as consequências dessa assombração. É um filme de George Romero sem elementos gore invadindo uma série como Barrados no Baile.

No caso, o Grande Outro é a deformação da aparência e a destruição da vida social. E pior: a Doença transforma o Sexo em algo potencialmente perigoso, devorador. No fim, a Doença é apenas um catalisador das nossas reações inconscientes. Não há vilões ou heróis aqui, apenas atos e consequências. Retirar-se completamente da sociedade em Black Hole pode significar evitar insultos e conviver apenas com similares, em abrigos no meio do mato, em barracas úmidas e asquerosas, cercado de meninos degenerados e com tendências suicidas. A segurança é sempre dúbia, nunca definitiva.

Conforme vamos nos familiarizando com os diversos protagonistas da história — garotos e garotas que foram infectados, outros que não foram e aqueles que estão prestes a ser —, o clima de horror, delírio e insanidade toma conta dos adolescentes.

BLACK HOLE apresenta um retrato soberbo e inquietante da alienação dos tempos colegiais, repleto de selvageria e crueldade e hormônios à flor da pele, que dialogam com a angústia, o tédio e as necessidades mais profundas de nossa própria aceitação que dominam essa época da vida. Hipnótico e aterrador, a graphic novel que consagrou Charles Burns transcende seu gênero ao explorar com habilidade um momento cultural específico americano, quando não era mais bacana ser hippie, e David Bowie ainda era um pouco estranho para estes jovens, a liberdade sexual começava a se transformar em um pesadelo e a vida adulta cobrava o seu preço pelos traumas reais da infância — traumas da perda e da sensação de absurdo existencial.

Sobre o autor:

Charles Burns nasceu em 1955 em Washington, D.C., e cresceu em Seattle durante os anos 1970. Sua obra começou a aparecer e a se destacar na revista Raw, de Art Spiegelman, em meados dos anos 1980, seguida por uma variedade de quadrinhos e projetos, de colaborações para revistas de HQs como Métal Hurlant, Frigidaire, El Víbora e Schwermetall, à capas para os álbuns de Iggy Pop e para publicações como Esquire, New Yorker, New York Times Magazine, Time e The Believer. Black Hole foi publicado originalmente de forma seriada em doze edições pela Kitchen Sink Press e pela Fantagraphics entre 1993 e 2004, e reunida em volume único pela Pantheon em 2005, para aclamação mundial. Em 2007, Burns contribui para antologia animada de horror Peur(s) du noir (Medo(s) do escuro), ao lado de nomes como Lorenzo Mattotti e Richard McGuire. Deu início a uma nova série em 2010, com X’ed Out, seguida por The Hive (2012) e Sugar Skull (2014), reunidas em Last Look em 2016 e ainda inédita no Brasil. Saiba mais em facebook.com/CharlesBurnsComix/

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Andre Sousa

André Sousa, Cearense, 31 anos, pseudo intelectual de rede social, inteligentemente gaiato e consumidor moderado de drogas lícitas.