Animal, a HQ que balançou os anos 80

O final dos anos 80 foi uma época muito especial para os quadrinhos no Brasil. Até então, a nona arte era vista em nosso país como uma mídia intrinsecamente infanto-juvenil e as revistas nas bancas refletiam essa concepção, tanto no formato pequeno, nas cores primitivas e nas impressões desleixadas, quanto no conteúdo dominado pelos super-heróis das editoras Marvel e DC. O conceito de quadrinhos para adultos se restringia a publicações underground, normalmente de vida curta, ou a álbuns de autores europeus, raros, vendidos em livrarias e de preço pouco acessível ao leitor comum.

As coisas começariam a mudar em 1987, com a publicação de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Revistas como Chiclete com Banana e Circo já apontavam para a existência de uma demanda por quadrinhos adultos, mas foi o êxito da obra de Frank Miller que consolidou a noção de que era viável lançar HQs mais sofisticadas nas bancas comuns.

E essas obras vieram, seja na forma de minisséries de luxo, graphic novels ou revistas regulares. Nomes como WatchmenLobo Solitário e Love & Rockets fizeram a alegria de uma geração de leitores e se tornaram sinônimos de excelência nos anos seguintes. No entanto, dentro desta safra tão especial, um título se destacou como o mais inovador, radical e inusitado: a revista Animal da VHD Diffusion.

 

VHD era praticamente desconhecida, e vinha publicando sem muito alarde álbuns de quadrinhos europeus como Thorgal e Durango, respectivamente uma fantasia medieval e um western. Era um material bem no padrão clássico do Velho Continente, bastante convencional e anódino. Enfim, nada que fizesse supor que a editora fosse se tornar a casa da anárquica Animal.

O número um aterrissou nas bancas em 1988. Se hoje nenhum leitor se surpreende com publicações luxuosas, naquela época era algo raro ver um título em quadrinhos com acabamento gráfico tão bom: a revista era impressa em diferentes papéis: couché de alta gramatura para as histórias coloridas, outras em off-set paras as em preto-e-branco e algumas em jornal, para o fanzine Mau, que ocupava suas páginas centrais.

Animal não deixava nada a dever às melhores revistas internacionais que lhe serviram de modelo, como a norte-americana Heavy Metal, a francesa L’Echo des Savanes, a espanhola El Víbora ou a italiana Frigidaire. O conteúdo era uma impressionante amostra da produção de alguns dos melhores artistas europeus, norte-americanos e brasileiros do período, mesclando autores consagrados com o melhor da vanguarda.

A capa da primeira edição ostentava uma ilustração em close daquele que se tornaria seu personagem-símbolo, o andróide Ranxerox, criação dos aloprados italianos Tamburini e Liberatore. As histórias do monstro cibernético se passavam numa distópica Roma futurista, onde ele descia a porrada em qualquer um que ameaçasse Lubna, sua amante toxicômana, linda no esplendor dos seus doze aninhos.

Sexo, drogas e ultraviolência seriam a tônica desta série amoral, que desconhecia qualquer limite que não a imaginação pervertida dos autores. Muito antes de Lobo ou Preacher, a exuberante arte pintada de Liberatore expunha sangue e vísceras com um realismo gráfico impressionante. A Animal publicou as duas primeiras aventuras do personagem, Ranxerox em New York e Feliz Aniversário Lubna de forma seriada ao longo de várias edições.

Perversão é a primeira palavra que vem à mente de qualquer um que tente definir a obra do francês Vuillemin, que participou de todas os números do título, com suas histórias sujas, escatológicas e absurdamente engraçadas. No primeiro número, ele narra o hilário conto de um menino que ganha dinheiro de seus pais para comprar seu presente de aniversário e decide usar a grana para pagar os serviços de uma prostituta.

Em outro episódio, o desenhista faz uma sátira ao Sargento Rock, da DC Comics, que termina com um soldado moribundo sendo sodomizado pelo sargento do pelotão. Tudo porque o jovem, ferido mortalmente em ação, havia lamentado que iria morrer virgem.

Assim como Tamburini e Liberatore, um outro italiano genial saiu das páginas da revista Frigidaire para marcar presença em Animal: Andrea Pazienza, com sua série Zanardi, composta por histórias anárquicas retratando um grupo de amigos e suas confusões recheadas de sexo e bom humor.

Infelizmente, a vida desregrada era característica comum a autores e personagens: tanto Tamburini quanto Pazienza morreram de overdose ainda nos anos 80.

Pazienza deixou pela metade uma HQ belíssima, A História de Astarte, que foi publicada no número 9 da revista. O Astarte do título é um majestoso cão de guerra que pertenceu ao conquistador cartaginês Aníbal e que, das trevas da morte, invade o sonho de um mortal para contar sua vida. As épicas dez páginas magnificamente ilustradas pelo artista são o melhor testemunho da perda que sua morte prematura significou para os quadrinhos.

Os espanhóis Segura e Bernet compareceram com Kraken, cuja trama se passa nos esgotos intermináveis de uma cidade futurista e tem como protagonista o Tenente Dante, de uma divisão especial da polícia encarregada de caçar o monstro disforme que habita os subterrâneos.

Na maioria da vezes, Dante tinha que se defrontar mesmo é com a escória humana que se apresentava na forma de bandidos e esquadrões da morte. Segura trouxe ainda sua parceria com o veterano desenhista Jose Ortiz, em Burton e Cyb, sobre dois vigaristas interplanetários que vivem criando golpes mirabolantes para “depenar” o otário da ocasião.

O traço sujo e genial de Bernet ainda iria abrilhantar várias outras edições ao longo dos meses, em histórias fechadas e nas aventuras do personagem mais canalha das HQs, o assassino profissional Luca Torelli, vulgo Torpedo, criado e escrito por Sanchez Abuli.

A cultuada Locas, de Jaime Hernandez, também marcaria presença, pela primeira vez no Brasil. A série foi o carro-chefe de Love & Rockets, revista antológica, que nos anos 80 marcou os quadrinhos autorais norte-americanos por sua originalidade.

Locas girava em torno das amigas/amantes Hopey e Maggie e sua vida no submundo dos bairros latinos de Los Angeles. A estética punk se faz presente na caracterização de protagonistas e coadjuvantes.

Massimo Mattioli apresentou Squeak the Mouse, estrelada por simulacros de Tom e Jerry que ao longo dos edições subseqüentes viveriam situações absurdas satirizando os filmes da série Sexta-Feira 13A Volta dos Mortos Vivos e até mesmo cenas típicas de fitas de sexo explícito. Do mesmo autor, viria também Superwest, uma espécie de Superpateta truculento e idiota, que derramava litros de sangue num mundo cartunesco ao estilo dos desenhos da Disney e similares.

E assim foi ao longo de 22 números: séries como Peter Pank, de Max; Calculus Cat, de Hunt Emerson; Johnny Nemo, de Peter Milligan e Brett Ewins (os criadores de Skreemer); Edmundo, o Porco, de Rochette e Veyron; Tank Girl, de Jaime Hewlett e Alan Martin; A Fundação, de Cássio Zahler e Osvaldo Pavanelli; O Sonho do Tubarão, de Mathias Schultheiss; histórias curtas de autores como Milo Manara, Roberto “Magnus” Raviola, Daniel Torres, Lorenzo Mattotti, André Toral, Mosquil, Altan e Loustal, entre outros.

Animal teve filhotes, na forma de álbuns com histórias longas. A Coleção Animal era mais luxuosa, com papel de boa qualidade e impressão em cores. Saíram dois números: Triton, de Daniel Torres, e o já citado Ranxerox em New York, de Tamburini e Liberatore.

O primeiro tratava das divertidas aventuras de Roco Vargas, uma espécie de James Bond intergaláctico, que ganhou vida no exuberante traço retrô de Torres. O segundo compilava a primeira aventura da besta cibernética, trazendo de quebras algumas páginas inéditas.

A série Grandes Aventuras Animal, em preto-e-branco e papel geralmente inferior, trouxe material de primeira linha, como A Bela e a Fera, de Trillo e Bernet; Necron, de Magnus; Sangue de Bairro, de Jaime Martin; ou O Tagarela, de Paolo Baciliero. Este último mostrava as desventuras de homem que descobre que seu pênis ganhou, sabe-se lá como, um rosto e a capacidade de falar. O membro inconveniente e falastrão não tinha papas na língua e, com o perdão do trocadilho, acaba metendo seu pobre dono nas mais hilárias e surreais situações, sendo até mesmo raptado por uma gangue de pornógrafos.

De especial interesse foi o oitavo e último álbum: O Vira-Lata, dos brasileiríssimos Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia. Numa narrativa densa, com influência da mitologia do candomblé, do cinema noir, do Corto Maltese de Hugo Pratt e do clássico mangá Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima, os leitores foram apresentados ao personagem-título, uma fascinante mescla de vagabundo, justiceiro e samurai urbano que transita pelas noites violentas da cidade de São Paulo. Sem dúvida, um dos pontos altos das HQs made in Brazil.

Muito mais que um título em quadrinhos, a Animal era uma revista sobre atitude. O fanzine Mau era espaço livre para temas que interessavam às mais diversas tribos urbanas, sempre recheado com matérias extremamente heterodoxas, para dizer o mínimo: música (bluespunk rock, alternativo, progressivo etc.), cinema, tatuagens, política, ecoterrorismo, divulgação de zines, sexo bizarro (artigos sobre bondage, sadomasoquismo, tara por amputações cirúrgicas ou por fotos eróticas de mulheres idosas), “utilidade” pública (como a cotação do preço de drogas ilegais e resumos de livros que ensinam como cometer suicídio ou versam sobre as diversas maneiras de se assassinar alguém) e, é claro, quadrinhos, especialmente os do tipo underground. Tudo compunha a geléia geral do encarte.

Com isso, a revista não apelava apenas ao leitor comum de HQs, mas aos antenados de modo geral. O que é comprovado pelo fato de que a VHD conseguia vender espaço publicitário fora do gueto habitual das gibiterias e afins. Faculdades, gravadoras de discos, rádios, lojas de roupas e de instrumentos musicais anunciavam regularmente na Animal, o que certamente ajudou a mantê-la nas bancas.

Infelizmente, nem mesmo os anúncios garantiram sua continuidade. Após resistir por cerca de quatro anos, a publicação acabou sucumbindo no final de 1991, vitimada pelas vendas baixas, pela inflação alta e pelos diversos pacotes econômicos do malfadado governo Collor de Mello.

Dado o caráter anticomercial de sua linha editorial, chega a surpreender que tenha durado tanto. Ao que consta, o número 23 estaria pronto para ser impresso, mas nunca chegou a ir para a gráfica. As edições antigas da revista são agora disputados nos sebos e se tornaram itens de colecionador.

Alguns dos editores da Animal ainda tentariam lançar uma publicação semelhante, só que privilegiando material de autores nacionais, a revista Lúcifer, que não teve o retorno esperado e acabou sendo cancelada após dois números.

Olhando em perspectiva, pode-se constatar que nenhuma outra publicação brasileira de quadrinhos conseguiu superar a Animal em excelência e ousadia. Nem mesmo a versão brasileira da Heavy Metal aglutinou uma concentração equiparável de talentos dos quadrinhos.

Animal era verdadeiramente uma revista à frente de seu tempo, o que, em última instância, talvez tenha sido sua ruína, visto que boa parte dos leitores não estava preparada para uma ruptura tão grande com o padrão vigente para publicações de HQs.

A grande questão que fica é se uma revista aos seus moldes seria viável atualmente. Afinal, os leitores, teoricamente, estão mais amadurecidos e abertos a experimentalismos. Qualquer resposta é mero exercício de especulação, mas parece claro que a tendência do mercado é a hiper-segmentação.

Os dias em que revistas como Animal e Circo eram compradas nas bancas de jornal aparentemente estão acabados, vide o fracasso de títulos mais ou menos assemelhadas, como a supracitada Heavy Metal, a Canalha, a Metal Pesado e a HQ Revista do Quadrinho Nacional.

As gibiterias se tornaram o espaço de excelência para qualquer publicação que fuja dos moldes comerciais, e é difícil pensar numa publicação de quadrinhos de vanguarda que fuja do trinômio baixas tiragens, preços altos e distribuição restrita a comic shops.

Passados mais de doze anos do cancelamento da Animal, o leitor brasileiro possui uma grande quantidade de publicações em quadrinhos à sua disposição e a qualidades gráfica das revistas nacionais deu um salto enorme. Entretanto, a aparente sofisticação, na maioria das vezes, apenas encobre a caretice do material, ainda predominantemente dominado pelo maniqueísmo das histórias de super-heróis.

Para os fãs dos quadrinhos adultos, faz muita falta uma revista como a Animal, que não subestime a inteligência do leitor e faça sua imaginação voar mais alto.

 

  

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Andre Sousa

André Sousa, Cearense, 31 anos, pseudo intelectual de rede social, inteligentemente gaiato e consumidor moderado de drogas lícitas.